A Villa Indica

Escolas mudam tradição e criam Dia da Família para evitar exclusão

Escolas mudam tradição e criam Dia da Família para evitar exclusão
Nas escolas onde o Dia da Família foi adotado, a reação das crianças tem sido natural, mas muitos pais são contra
Clarissa Pacheco
clarissa.pacheco@redebahia.com.br
Foi durante uma comemoração de Dia dos Pais da Escola Lua Nova que o pequeno Lucca, então com 3 anos, surpreendeu as mães Érica e Milena, que foram juntas pela primeira vez à festa na escola do filho. “Chegamos lá, sentamos... e ele se sentou no colo de um pai e ficou assistindo a um show de palhaços. Depois, o grupo disse: ‘que vocês tenham um dia maravilhoso com o pai de vocês, saiam para passear com o pai de vocês’. E meu filho com a mão no queixo ouvindo isso. Se aquilo doeu em mim, imagina nele”, lembra Érica, falando do episódio de três anos atrás. 
Quando Érica Matos, psicóloga, e Milena Santana, arquiteta, decidiram ter um filho, há pouco mais de seis anos, elas já se preocupavam com os desafios da criança. E aquela situação do Dia dos Pais motivou uma mudança na escola. Desde então, a Lua Nova promove outra festa duas vezes ao ano: a do Dia da Família.
 “Eu fui brigar pelo direito da gente. Foi um mal-estar, ele adoeceu, ficou 15 dias sem ir na escola. Eu fui repensar”, contou Érica. Boa parte das escolas infantis do Brasil ainda comemora, no segundo domingo de maio e no segundo domingo de agosto, os dias das Mães e dos Pais, respectivamente. 




Para evitar que o filho Lucca passasse por constrangimentos no Dia dos Pais, as mães Érica e Milena batalharam por um dia que homenageia famílias com qualquer configuração
Mas, ao procurar a direção, Érica argumentou que Lucca não era a única criança que poderia passar por situações semelhantes: além dos filhos de casais homossexuais, havia outras crianças que não tinham pai ou mãe, ou criadas por avós, tios, e que acabam se sentindo excluídas. 
Ela e Milena sugeriram a criação do Dia da Família e indicaram  uma pesquisa entre os pais. Nem precisou. A ideia foi abraçada. Hoje, é sucesso na escola e uma prática adotada em outras instituições.  
“Está lá nas diretrizes curriculares a questão do respeito às diferenças de gênero. Mas viver isso na prática ainda é um grande desafio, para nós também. A gente busca fazer as crianças pensarem”, disse a diretora pedagógica da Escola Lua Nova, Walkyria Amaral.
O funcionário público Nilo Cathalá, 51, já frequentou festas de Dia dos Pais nas escolas dos filhos. Hoje, acha que o Dia da Família é a melhor alternativa. “Eu acho até uma coisa meio brega e fora de moda, esse negócio de Dia do Pai, Dia da Mãe. É como elevador social: a gente vai, mas não existe mais aquela diferença”, brincou.
Há 11 meses, Nilo perdeu a esposa, vítima de um infarto. Hoje, é pai e mãe dos dois filhos: Lucas, 8, e Marco Antônio, 12. “Eu acho muito bacana assumir essa parte de Dia da Família, porque as famílias estão muito modificadas. Tem que acabar com isso de que família é só pai, mãe, filho”.
Quem também vê a festa com um olhar positivo é a aposentada Áurea do Nascimento Cerqueira, 78. Ela criou dois dos 18 netos, hoje com 17 e 14 anos, depois que a mãe deles os abandonou quando o mais novo tinha apenas 1 ano. O pai vive com outra família e os visita com alguma frequência. Mas quem ia mesmo às festas na escola dos netos era dona Áurea.
Espalhou 
A Lua Nova não é a única escola da capital que adotou o Dia da Família. Hoje, existe essa comemoração em escolas tradicionais como o Antônio Vieira e o Instituto Social da Bahia (Isba). Para Walkyria Amaral, o desafio é “incluir sem ser excludente”.
Em 1998, o Colégio Miró instaurou o Dia da Família, porém sem deixar de festejar os dias dos Pais e das Mães. “Com o passar do tempo, a gente viu que não era viável, eram muitas festividades. Ficou um hiato sem que a gente comemorasse o Dia da Família e este ano a gente retomou”, disse a diretora pedagógica da escola, Maria Clara Coelho.
Os motivos que levaram o Miró a estabelecer um dia para celebrar a família são os mesmos que guiaram as escolas Lua Nova e a Villa Criar, que fica em Vilas do Atlântico, Lauro de Freitas.
“O que a gente via era a criança frustrada, porque se trabalhava uma semana falando da mãe, do pai, e quando chegava a festa e a mãe não podia comparecer, ou porque não teve tempo, ou porque já faleceu, ou porque tem uma relação dolorosa”, explicou Telma Gottschalk, coordenadora pedagógica da Villa Criar.
Desafios 
O cartunista e escritor Luis Augusto, 42, que é  pai e mãe de Ben,  4 anos, acredita que o posicionamento da escola é importante para a formação das crianças enquanto cidadãs.
“Eu acho que a escola tem que voltar aos poucos a ser um centro de formadores, e não de acúmulo de conhecimento. A sociedade está em mutação e a gente só sobrevive porque se adapta ao mundo”, disse.




Luis Augusto faz papel de pai e mãe de Ben, cuja escola ainda não definiu se manterá o Dia da Família
Para Érica Matos, a proposta da escola é fundamental. “Fui na escola quatro vezes para ter certeza de que eles aceitariam a condição de duas mães. E a Lua Nova encara a subjetividade de uma forma maravilhosa”, disse.
A diretora Walkyria acredita que a escolha coincide com os valores e a proposta pedagógica. “Se a escola tem uma visão fechada em relação a isso, então fica mais difícil de essa família ser incluída”.
Muitos pais ainda são contrários à mudança
Nas escolas onde o Dia da Família foi adotado, a reação das crianças tem sido natural, mas muitos pais são contra. Segundo Maria Clara Coelho, coordenadora pedagógica do Colégio Miró, houve protestos. “Teve um desconforto, especialmente pelas mães, mas nós tivemos mais retornos positivos”, disse. A diretora da Villa Criar, Telma Gottschalk, disse que os pais cobram as datas tradicionais.
“A gente valoriza, mas vai mostrando para eles que o importante é a família”. O funcionário público Nilo Cathalá conta que os filhos sentiram na pele o preconceito pela ausência da mãe. “Tem o ranço da família tradicional. Colegas falavam para os meninos: ‘sua mãe já morreu, você não tem mãe’”, contou.
Já o cartunista Luis Augusto conta que, na Escola Pimpolho, o filho Ben nunca sofreu preconceito. Autor do personagem Lucas, do Fala Menino, ele lançará em novembro um livro com a história do filho até o primeiro dia de aula. Mas o Dia da Família, que este ano será celebrado pela primeira vez  na Pimpolho, não deve continuar no ano que vem. Segundo a diretora, Maria de Lourdes Xavier, há muitos pais contrários à ideia.
Dia da Família desenvolve respeito à diversidade, afirma especialista
Para a psicóloga clínica Daniela Nunes, a decisão da escola em comemorar o Dia da Família certamente terá efeitos sobre as crianças e os pais. Estes efeitos terão tanto traços positivos quanto negativos.
“Me parece interessante a proposta do Dia da Família, principalmente se considerando que estamos numa época de novas configurações familiares, numa época em que não temos mais aquela configuração patriarcal”, disse. Ela considera que as escolas devem fazer tentativas de se adaptar e também fazer com que as crianças possam se adequar à nova realidade.
“Isso abre possibilidades, desde que, com isso, não seja retirada a importância das funções materna e paterna, por mais que essas funções não sejam exercidas pela figura do pai ou da mãe”, disse.
Ana Manoela Costta, uma das orientadoras pedagógicas da Escola Lua Nova, diz que as crianças têm muitos questionamentos. “Não é algo que não levante uma certa interrogação, principalmente levando em consideração a postura e a referência de família, mas a gente não tem episódios de desrespeito”, disse.
Para ela, pedagogicamente, a adoção do sistema funciona como um “compromisso com a formação do sujeito”. Psicologicamente, possibilita ao indivíduo conviver com a diversidade.

Fonte: Correio 24 horas